Vida de caroneiro – Parte 1

Na beira da estrada, com uma mochila nas costas, uma placa na mão e um dedão levantado. Paciência, sorte e um pouco de coragem. A carona é uma arte menosprezada por aqui, mas é reconhecidamente um dos meios mais baratos (e demorados) de se viajar em lugares como Europa, Estados Unidos ou Austrália.

Em países como a Alemanha, ela é tão organizada que existem até serviços que ajudam caroneiros a se encontrar com motoristas (como o Mitfahrgelegenheit – http://www.mitfahrgelegenheit.de/). Em muitos países, porém, a carona é ilegal, o que não quer dizer que ela não exista – aonde há um mochileiro tentando viajar, há um dedo em riste na beira da estrada.

Uma placa na mão, um dedo levantado e paciência...
Uma placa na mão, um dedo levantado e paciência…

Minha primeira experiência com caronas foi inusitadamente do lado do motorista (mas do lado inglês, diga-se de passagem). Durante uma viagem à Nova Zelândia, com minha prima, alugamos um carro e saímos de Christchurch em direção ao belíssimo Lake Tekapo. Logo na saída da cidade, assim que pegamos a estrada, vimos no acostamento dois jovens estilo hippie, cabelos dignamente despenteados, roupas largas e chinelos. Tocavam violão e mantinham a seus pés uma placa indicando o destino: uma cidadezinha que, pelo que podíamos ver no mapa, ficava na região de Ashburton, meio do caminho para nós.

Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #2

Um guia com os piores lugares para se comer mal sem gastar muito em São Paulo

Tudo isso por um real
Tudo isso por um real

Bom Prato
Rua 25 de março, 166
Refeição completa
Custo total: R$1

Saindo do metrô Sé e descendo a Rangel Pestana encontramos o primeiro indício que estávamos no caminho certo do Bom Prato: um mendigo pedindo um real para o almoço no local. Querendo me enturmar com a clientela local, estendi uma moeda ao rapaz: “Quero ir no Bom Prato também. Posso ir com você?”.

O mendigo prontamente retirou a moeda de meus dedos e disse que precisava ir buscar a patroa dele ali em cima, não sem antes nos indicar o caminho “Fica ali, ó… Esquerda e depois esquerda de novo, na esquina.” e partiu. Sendo dispensado por um mendigo; essa é minha vida.

Eram 11:50 da manhã quando chegamos no salão do Bom Prato. Ainda não havia filas. A casa abre às 11h e o almoço é servido até o término da cota de cada unidade (que varia entre 1200 a 2500 refeições). Desde 2011, as unidades também oferecem café da manhã a R$0,50.

O Governo do Estado subisidia R$3,00 do custo total da refeição, restando ao usuário pagar somente o valor de R$1,00 pelo prato bem servido. Paga-se o valor na entrada, onde recebe-se um cartãozinho que é entregue logo ao lado. Uma pia após a catraca permite que os clientes com um mínimo de asseio lavem as mãos e, posteriormente, seguem para a fila das refeições. Nunca fui preso, mas já comi no bandejão da USP e essa é a comparação mais próxima que eu consigo imaginar para o serviço. Meu prato de porcelana foi inicialmente agredido com uma concha de arroz e uma de feijão simultânea. Seguindo a fila, conchas consideravelmente menores de um bem-temperado frango e berinjela são despejadas por cima. Não há espaço para recusas. Antes que você consiga pensar, a comida é jogada na sua frente. Um pouco de alface picado, uma banana, um copo de plástico de um suco vermelho e um pãozinho meio deformado completam a bandeja.

Arrumamos um lugar no salão onde a movimentação de uma imensa variedade de pessoas de todos os tipos e classes revezavam-se sentando, comendo e saindo. A comida é incrivelmente boa, servida quentinha, melhor que a maioria dos PFs de padarias. A combinação nutritiva é uma das coisas mais saudáveis que eu comi por conta própria no ano.

A Convenção de Kitzbühel

Era uma quarta-feira, 05 de julho, quando meu avião vindo de Estocolmo pousou em Munich.

Ridiculamente linda cidade.
Kitzbühel: ridiculamente linda cidade.

Viajava a trabalho, vindo de um projeto na Suécia para uma convenção na pequena cidade de Kitzbühel, na Áustria. A empresa que me empregava em Londres havia comprado uma outra pequena companhia alemã de envio de e-mails, e essa convenção foi organizada de forma que ambas se conhecessem. O encontro envolvia praticamente toda a equipe da empresa comprada e uma pequena parcela da alta cúpula da multinacional aonde eu trabalhava, incluindo todos os meus superiores europeus – por algum motivo obscuro, eu também estava nessa seleta lista de importantes empresários.

Assim, no aeroporto de Munich, um ônibus fretado esperava funcionários vindos de várias partes da Europa, para partir estrada afora rumo à Áustria, aonde um hedonista hotel cinco estrelas (ou algo próximo disso) estaria nos aguardando para que aproveitássemos de suas confortáveis almofadas e jardins com vista para os Alpes sob o pretexto de estarmos trabalhando. Essa é a vida da alta cúpula empresarial européia (que, por sinal, eu abandonei para vender cerveja na Lapa).

Alguns pequenos atrasos nas chegadas fizeram o ônibus atrasar um pouco sua partida. Um inconveniente trânsito na E45 e uma conveniente parada em um posto de gasolina para comprarmos cerveja causaram um atraso ainda maior e fizeram com que chegássemos no hotel aproximadamente duas horas depois do previsto.

“Como estamos bem atrasados, vocês somente deixem suas malas nos quartos e já desçam até o restaurante para o jantar, antes que ele feche.”, disse meu chefe enquanto todos fazíamos o check-in. Eu, porém, tinha algum e-mail importante e fútil para responder (eu sei que era importante porque eu posterguei um jantar gratuito para respondê-lo e eu sei que era fútil porque eu não me lembro o que era), e fui praticamente o último funcionário a chegar no restaurante. Naquela altura, todas as mesas já estavam praticamente ocupadas e o único lugar vago era na mesa dos chefes.

Como sempre fui integrante assíduo da baixa classe de proletariado e como provavelmente eles estariam falando de trabalho, me incomodou um pouco aquele assento. Três níveis hierárquicos acima de mim dividiam a mesa e, por mais que eu insista que não me importo com autoridades, tentei manter uma pose e comportamento respeitáveis. Em vão, obviamente.

Agrega valor
Agrega valor

Fui até o buffet self-service, aonde travessas ainda alinhavam-se convidativamente. Peguei um dos pratos de uma pilha disponível na mesa de saladas e mesmo ele parecendo muito pequeno, era o único que eu tinha em vista naquele momento. Me servi de alfaces, tomates e passei para a bancada com os pratos quentes. O problema é que os nomes de todas as comidas estavam em alemão e, apesar de saber o que é bier, chucruts e wurst, a variedade oferecida iria desafiar muito mais a minha habilidade de ler amontoados de consoantes aparentemente sem sentido. Fui me servindo, então, de forma aleatória. Peguei um salsichão branco (alguma-coisa-wurst) e um punhado de alguma carne. Me servi também de uma colherada de um macarrão-parafuso que me apeteceu e, na falta de tempero, joguei por cima o molho vermelho ali do lado da travessa, que, obviamente, só podia ser molho de tomate.

Chegando no final da bancada, antes de voltar, uma surpresa. Do outro lado, tendo passado desapercebido por mim, estava o começo do buffet. Na afobação de ir buscar comida antes que o restaurante fechasse, eu não tinha visto aquela seção. Nela, haviam as entradas, pães, uma variedade ofensiva de queijos e, obviamente uma pilha de pratos adequados. Se eu tinha achado meu prato pequeno, era porque aquele era o prato para saladas – que, num lugar tão garboso, evidentemente não devia ser colocada no mesmo receptáculo que a comida quente. O que fazer numa situação dessas? O espírito pedreiro recomendava simplesmente virar o conteúdo daquele prato minúsculo em um prato decente e esconder meu prato de saladas usado debaixo da toalha. O requinte me impediu de fazer maiores estultices em um lugar tão fino, então mandei às favas os pratos maiores, adicionei ainda algum queijo mal-cheiroso no topo de minha montanha de comida alemã e voltei à mesa da chefia, imaginando que meu minúsculo prato amontoado de todos os estilos gastronômicos misturados iria me colocar em meu devido lugar, uma camada abaixo de meus chefes elitistas com sua autoridade demonstrada pela linha de porcelanas adeqüadamente maior.

Ainda me levantei uma vez mais para pegar um copo e aproveitar-me da jarra de suco de laranja que estava em nossa mesa. Peguei então uma taça que estava em meio a outras em uma mesa próxima. E, já que estava com o prato errado, para combinar, quando retornei percebi que estava com o copo errado também, e, enquanto todos tomavam suco em copos baixos e retos, eu me servia no que agora eu via que era uma taça de vinho, numa combinação um tanto quanto pitoresca com meu prato minúsculo.

Como se isso não bastasse, minha refeição pareceu ainda mais ridícula quando eu percebi que o suposto molho de tomate que coloquei em cima do macarrão e da salsicha era, na verdade, geléia de framboesa. Por sorte, meus chefes europeus deviam estar acostumados a culturas ridículas e não teceram comentários sobre minha peculiar combinação de sabores e porcelanato, demonstrando assim uma elegância coerente ao cargo que ocupavam. Eu, porém, me sentia num episódio de Mr. Bean, onde qualquer comentário ou ação que eu tomasse só aumentaria a vergonha alheia de minha situação.

Pelo menos, os outros dois dias a trabalho na Áustria se mostraram divertidos e produtivos, numa excelente combinação de tardes de palestras e reuniões com noites de baladas fechadas e jantares suntuosos. Após esse primeiro jantar, tentei manter novamente uma certa distância da alta hierarquia da empresa e, o máximo de babaquice que eu conseguir fazer durante o resto de nossa estadia foi derramar vinho tinto na camisa do gerente europeu.

A essa altura, eles já deviam saber que é prudente tomar uma certa distância de mim.

Até os manequins austríacos parecem contrariados com minha presença.
Até os manequins austríacos parecem contrariados com minha presença.

 

Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #1

Um guia com os piores lugares para se comer mal sem gastar muito em São Paulo

Evite tirar fotos muito próximas do local
Evite tirar fotos muito próximas do local

Churrasco Grego
Largo do Paissandu, 19 – centro
Um churrasco grego com suco
Custo total: R$1,50

Empoleirado na soleira da porta de uma lanchonete, atrás da Igreja dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu, e com uma monumental vista para os suicídios de jovens na Galeria do Rock, encontramos este nobre e minúsculo apêndice de toldo azul com sua carne eternamente giratória. 

Lá é possível degustar o tradicional churrasco grego, sempre acompanhado com um serviço de entretenimento promovido pelos mendigos locais. O mendigo que nos atendeu alcunhava a si mesmo de “vagabundo do delegado” – sendo “vagabundo” um substantivo. Ele iniciou sua aproximação me jogando um beijo ao vento e cuspiu (algumas vezes literalmente) toda sua sabedoria sobre como as mulheres só causam problemas e eu devia me livrar da minha – o que já demonstra que talvez não seja uma boa idéia levar sua garota para um jantar romântico no local.

Não há opções vegetarianas. Nossa escolha foi o único lanche disponível, na versão com vinagrete – este que fica armazenado à temperatura ambiente, na mesma gaveta de onde o vendedor lhe devolverá o troco. O sanduíche foi meio decepcionante, parecendo muito menor do que devia, mas com uma relação custo-benefício que vale a pena. Os clientes têm à disposição, além dos agüados condimentos básicos (ketchup e mostarda), um balde com um molho de pimenta caseiro, a ser depositado no pão com uma colher de pau compartilhada por todo mundo. Apesar de bem temperado, é recomendável evitá-lo – e me refiro não só a não experimentar o molho, mas também a se manter a uma certa distância dele.

A cortesia da casa fica por conta refil de suco. Pelo menos o responsável não parece se importar com os clientes reabastecendo seus copos na refresqueira. Também não podemos dizer que seja um primor de suco: não passa de uma água com açúcar e corante, mas que provavelmente deve cair muito bem se acompanhada por vodka (leve a sua de casa).

Um adesivo colado no toldo indica a área de fumantes (a 15km dali, indo em qualquer direção). A ausência de guardanapos decentes também é um problema, além do público ligeiramente pessimamente apresentável. A única garota em um raio de dois quilômetros do local foi a que eu levei e que ainda pagou por minha refeição (o que também é uma indicação do porquê que meus relacionamentos nunca duram).

***

Rei do Salgado
Um público variado a qualquer hora do dia

Rei dos Salgados 
Rua Dom José de Barros, 144 – centro
Um rissoles e uma coxinha
Custo total: R$1,00

Se o centro de São Paulo fosse um ser vivo, este nobre lugar estaria localizado no que seria o seu rim.

Nesta casinha de aproximadamente 15m², o que imediatamente nos chama a atenção são duas faixas anunciando salgados a R$0,50 e sua inusitada decoração com azulejos pintados de laranja, que por algum motivo me fez lembrar um Crocs.

Do lado oposto à porta localiza-se o espaço gourmet, que na verdade é apenas uma bancada de vidro onde dezenas de salgados espremem-se e amontoam-se ali de forma desordenada e aleatória como minhocas em um minhocário (a comparação pode parecer meio nojenta, mas as minhocas não se importam).

Pedi um rissoles (R$0,50) e uma coxinha (R$0,50). Ambos devem ter sido feitos naquela semana mesmo e reaquecidos todas as manhãs, aonde ficam no vidro lentamente resfriando-se, o que dá um sabor todo especial às iguarias. Nas laterais do estabelecimento, um balcãozinho de aproximadamente 20cm de largura permite que os clientes comam por ali mesmo, em pé. Numa das paredes, um espelho permite que eles vejam a si mesmos comendo e dessa forma repensem completamente a própria vida.

A consistência do ketchup era o que podíamos chamar de surpreendente. E o mesmo adjetivo pode ser dado à textura do salgado. O público é do mais variado: enquanto camelôs esbravejavam impropérios na rua, uma colombiana se confundia toda com a grande variedade oferecida. Uma criança esperneava por um pastel (R$1,00), que era da metade do tamanho do pastel de R$2,50 ali perto.

Corajosamente, engoli os dois salgados a seco, o que foi um problema porque a massa cria uma consistência autocolante. Provavelmente, cinco ou seis salgados são o suficiente para colar completamente sua boca e entupir suas vias respiratórias.

***

Pastel a 2.50
Pastel a 2.50

Pastelaria Imperial
Avenida Prestes Maia, 72 – Anhangabaú
Um pastel e um caldo de cana
Custo total: R$4,00

Extremamente bem localizado, no coração do Vale Anhangabaú – saindo do metrô São Bento, no terceiro morador de rua à esquerda -, se localiza esta nobre casa: um amplo salão bem iluminado, repleto de pequenas mesas de madeira rodeadas por cadeiras de plástico. O chão é sujo como um deputado federal – talvez com um pouco menos de luz, a porquice poderia passar levemente mais despercebida. As paredes são decoradas com duas grandes imagens de temática nipônica, o que ajuda a reforçar aquele esteriótipo do japonês pasteleiro.

Uma chamativa faixa anuncia ao vale a grande especialidade da casa: Pastel de feira a R$2,50. O preço é o mesmo há pelo menos oito meses, o que deveria descaracterizar o anúncio de “promoção” que a faixa ainda carrega. Dentro, uma placa ameaçadora destaca o fato que é proibido consumir ali alimentos trazidos de fora. O banheiro para não-clientes custa R$1,00 – vinte e cinco centavos mais barato do que comprar um salgado e virar cliente.

Não perca tempo maravilhando-se com o carrossel de sabores que a casa oferece. Vá até o balcão e veja quais bandejas ainda restam. Talvez pela popularidade da casa ou por preguiça do pasteleiro, o cardápio nunca se encontra 100% completo.

Uma vez escolhida a iguaria a ser degustada, paga-se primeiro no caixa, demonstrando uma inteligentíssima falta de confiança no cliente. No fundo do estabelecimento, um espaço gourmet self-service apresenta uma ampla variedade de salgados ao preço de R$1,25 cada um.

Optei por um pastel de carne com queijo (R$2,50) e 300ml de caldo de cana (R$1,50). Aceita-se cartões de crédito.

O pastel, frito na hora (uma vantagem em relação às outras casas, acredite!) tem um sabor bem justo. O recheio tinha uma porção honesta de queijo, porém já vi refeições vegetarianas que tinham mais carne. Ele fica ainda melhor se você não colocar os condimentos da casa: o ketchup é doce e a mostarda azeda. Galões de ketchup e mostarda repousavam ameaçadores em cima do balcão (são da marca Lanchero, caso alguém se interesse).

O caldo de cana peca na falta de personalidade, mas ganha na personalização. É possível definir quantas pedras de gelo você quer e quanto de suco de limão deve ser adicionado ao seu drinque. O meu copo veio com um pequeno inseto alado flutuando no líquido verde, o que só evidencia a pureza da cana utilizada. Os canudos são todos embalados individualmente, num inexplicável arroubo de higiene.

Com um público eclético (é possível ver pedreiros, mendigos, engravatados e famílias), preços atrativos e uma qualidade próxima do mediano, é uma boa pedida para quem tem mais fome do que dinheiro.

***

+ MAIS +

Outros roteiros:

Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #2
Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #3

Para comer:

Churrasco Grego: Largo do Paissandu, 19
Rei do Salgado: Rua Dom José de Barros, 144
Pastelaria Imperial: Avenida Prestes Maia, 72
Estomazil: Em qualquer farmácia

Na próxima edição:

Yakissoba, Bom Prato e mais.

Se você tem alguma sugestão de lugar ruim e barato, deixe aí nos comentários que ela será levada em conta.

Fagulha

Things are getting pretty serious...
Things are getting pretty serious…

Minhas habilidades (nulas) de relacionamento já devem ter ficado notáveis para aqueles que acompanham este blog ou que me conhecem pessoalmente.

Eu vou arrumar uma namorada pra você“, disse uma amiga, sendo provavelmente a quarta pessoa a dizer isso só neste ano (a maior parte já desistiu). Agora, porém eu ia contar com a ajuda do fascinante mundo da tecnologia para facilitar essa incessante busca pela tampa de minha panela.

Foi ela que baixou o Tinder e montou meu perfil. Ela que escolheu todas as minhas fotos “Você não tem o menor bom senso pra essas coisas. E nem fotos boas, pelo que parece“. Boina, óculos escuros e um sorriso de canto de boca na foto de capa. Uma no estádio da Luz, torcendo para o Benfica; outra dançando no Cavern Club “…pras meninas verem que você sabe dançar“; uma outra levantando uma taça de marguerita em um hotel chique; “e a última eu deixo você escolher. Não! Essa não! Nem essa!“, dizia ela enquanto eu rodava pelas minhas fotos até parar em uma tomando Coca-Cola, vestido de árabe no deserto do Saara “Essa é péssima, mas eu acho que você não tem nenhuma melhor mesmo.

Tinder (http://www.tinder.com/) é uma rede social com uma premissa bem interessante: Ela apresenta perfis de pessoas que estão geograficamente perto e permite que você dê (ou não) um like nelas. Ela integra com seu facebook, permitindo selecionar de lá as fotos e avisando se aquela pessoa possui amigos em comum com você (importante em alguns casos). Se houverem likes mútuos, o aplicativo avisa que vocês dois se gostaram e abre um chat para que vocês possam conversar. Bem fútil.

Quem foi Guy Fawkes?

Texto originalmente publicado no site “Papo de Homem” em 28 de junho de 2013.
http://papodehomem.com.br/guy-fawkes-homens-que-voce-deveria-conhecer-40/

Na história criada por Alan Moore e ilustrada por David Lloyd (transformada posteriormente em um ótimo filme), o protagonista usa uma máscara baseada numa figura histórica do século XVII. Pelo contexto do enredo, a face mascarada ficou popularmente conhecida como símbolo de revolta do povo, usada para representar o levante da população perante um governo. Assim, a história de “V de Vingança” acabou endeusando a figura de Guy Fawkes. Mas antes de sair por aí com uma máscara de uma personalidade histórica, seria melhor conhecer a história desse terrorista católico extremista, que, se não tivesse falhado com seu plano, teria destruído em 1605 não só o parlamento inglês, mas tudo ao redor num raio de até 490 metros.

Retrato de Guy Fawkes
Retrato de Guy Fawkes

Guy Fawkes nasceu em 1570, em York. Seu pai morreu quando ele tinha apenas oito anos. Anos depois, sua mãe casou-se de novo com um católico fervoroso, que não aceitava a religião anglicana na Inglaterra. Por influência do padrasto, Fawkes converteu-se ao catolicismo e deixou a Inglaterra para lutar pela Espanha Católica durante a Guerra dos oitenta anos, nos países baixos. Nesse período de guerra, sob o nome de Guido Fawkes, se tornou especialista em explosivos. Ainda nessa época, participou de uma tentativa frustrada de restaurar o catolicismo no Reino Unido. Foi quando conheceu Thomas Wintour, um dos personagens que também participaria da chamada “Conspiração da Pólvora”.

Pé na Cova

Na tradição mexicana, 02 de novembro é o dia dos mortos, onde os falecidos são celebrados e até festejados. É uma festa um pouco mais alegre que o dia de finados por aqui, que só é comemorado porque ninguém trabalha.

Minha foice. Gosto de deixá-la perto de onde ficava meu coração.
Minha foice. Gosto de deixá-la perto de onde ficava meu coração.

Dia 02 de novembro porém também é um dia de festa para o Bolão Pé na Cova, o futuro grande sucesso da Paulo Velho empreendimentos (que é tipo uma Walt Disney só de bobagens).

O Bolão ganhou fama na época que o site Cocadaboa ainda trollava a internet alegremente por aí. Infelizmente, o bolão foi sendo abandonado até que caiu no ostracismo – http://www.cocadaboa.com/bolao/ – Basicamente, a idéia é enviar uma lista com 15 nomes de celebridades que você acredita que passarão desta para uma melhor no ano e conforme os obituários forem sendo abastecidos, os participantes vão ganhando pontos. Para a brincadeira ficar mais legal ainda, quanto mais jovem a pessoa apostada, mais pontos ela rende (confira o regulamento completo).

Sempre fui fã da brincadeira. Assim, em 2012, convidei amigos mais próximos para brincar também. Vários amigos mandaram listas, de forma que a organização do Bolão se tornou algo meio complexo. Para a edição de 2013, então adaptei um sistema em wordpress para tornar essa manutenção mais fácil e intuitiva. E o Bolão cresceu mais…

Discordo!

Recentemente, uma amiga publicou em seu facebook um punhado de frases seguidas de um pedido para que, se algum amigo dela concordasse com qualquer uma daquelas frases, que a excluísse do círculo de amizades imediatamente.

¿Por qué no te callas?
¿Por qué no te callas?

Obviamente que eu não a excluí. Não acho que a opinião de uma pessoa sobre um assunto seja um fator assim tão crucial na definição de nossas amizades, mesmo aqueles amigos que têm opiniões ao meu ver extremamente cretinas, como homofóbicos, anti-semitas ou admiradores de música sertaneja.

Quebrando mau

Um senhor de cuecas segurando uma arma no meio do deserto. É com essa inóspita cena que inicia-se Breaking Bad, a coisa mais legal que a TV produziu em toda a sua existência.

Desde a segunda temporada da série que eu faço parte deste crescente grupo de chatos que ficam recomendando incessantemente para os amigos e desconhecidos no meio da rua para que assistam essa obra, mais viciante que a metanfetamina com 99,1% de pureza que é feita pelo químico protagonista Walter White, um professor que descobre que tem um câncer e se transforma num produtor de drogas para conseguir dinheiro para o tratamento e para deixar para sua família após morrer (e se prepara que daqui pra frente é só spoilers até o final).

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“We have to cook!”

O roteiro é o primeiro e maior acerto da série. Apesar da segunda temporada um pouco mais fraca (na minha modesta opinião), a história sempre caminhou maravilhosamente, de forma que a vilanização do protagonista é tão gradual e bem feita que chegamos ao final da série com uma extrema empatia por este homem calculista, manipulador e frio. Mr. White é um anti-herói. Suas ações são todas justificáveis, porém a maioria delas é extremamente condenável. 

Tragédias literárias

all my friends are dead...
all my friends are dead…

Você se lembra aonde estava quando o Senna sofreu seu acidente final? E quando os aviões atingiram as Torres Gêmeas? E quando o Dumbledore morreu?

As tragédias marcam as nossas vidas de uma forma incrível: é muito fácil lembrar-nos completamente do que fizemos durante todo o dia 11 de setembro de 2011. Quem encontramos, aonde estávamos, às vezes até o que almoçamos naquele dia, enquanto fitávamos abobalhados a televisão, reprisando repetidamente aquela bola de fogo subindo pelo céu de New York.

O que me intriga são as tragédias que acometem a todos nós, mas cada um a seu tempo. São as tragédias literárias. Você se lembra o que estava fazendo quando Dumbledore morreu?

O fascinante de uma pergunta dessas é que ele morreu em dias – e até de formas – diferentes para cada um de nós. Para muitos pode ter sido em um domingo chuvoso, para outros foi num ensolarado dia de praia e para mim foi no conforto de minha cama, às 3h da manhã de um dia útil, após uma maratona de “só mais um capítulo e aí eu vou dormir” que consumiu praticamente o livro todo.

No mundo literário, não há muitos personagens que nos prendem a ponto de gerarmos lembranças tão marcantes de suas tragédias. Às vezes, porém, o drama é tão forte que foge da ficção e te deprime na sua vida cotidiana. Um dos momentos mais tristes da minha vida foi um sábado, a Globo transmitia São Paulo x Guarani enquanto eu lia “As Crônicas de Artur”, de Bernard Cornwell. O São Paulo sofreu um gol de virada no exato segundo que o meu personagem favorito do livro morreu em um duelo, fatos que em conjunto me deixaram deprimidos pelo resto do dia – quase pelo resto da vida.

Às vezes, o impacto emocional é tão grande que a melhor coisa a se fazer é simplesmente não ler o livro. Se você ler apenas os dois primeiros capítulos de Game of Thrones, pode conviver para sempre com a idéia daquele reino maravilhoso onde o rei Robert Baratheon governa alegremente aquele punhado de famílias pacíficas. Pronto. É melhor pra todos.

JK Rowling e George RR Martin

Em um dia de maio, quando eu já estava acostumado com o espírito assassino de George R. R. Martin, voltava de ônibus de uma viagem pelo norte de Portugal, me entretendo com o segundo livro, quando logo percebi que mais alguma tragédia terrível ia atingir a família Stark. A coisa mais inteligente que eu fiz foi fechar o livro imediatamente e esperar um tempo. Enquanto eu não lesse, meus queridos personagens continuariam vivos, então me contive o máximo possível para dar a eles algumas horas a mais de vida. Sou um rapaz misericordioso também.

Ainda em Game of Thrones, Ned Stark foi decapitado enquanto eu estava deitado em minha cama em Lisboa (não quero saber de reclamações de spoilers! ele era interpretado pelo Sean Bean, lógico que ia morrer!); e, em Londres, tive um almoço particularmente longo porque não conseguia parar de ler e de me aterrorizar com os acontecimentos do Red Wedding, fato que me colocou em depressão pelo resto do dia.

Por sorte, o caminho contrário nunca acontece e a depressão de nossas vidas não atinge nossos personagens. O que é particularmente útil quando queremos escapar da realidade chata. Quando tudo mais falhar, é só abrir aquele gibi com a certeza que o Cebolinha e o Cascão estão brincando alheios aos nossos problemas, a Mônica se diverte com o bullying dela – ao contrário de nós que sofremos com os nossos – e a Magali ignora o futuro provavelmente anoréxico que vai acometê-la na adolescência.

Os livros seguem a vida deles independentes das nossas. A recíproca nem sempre é verdadeira.