Jornalismo Imersivo

Em 1959, o escritor John Howard Griffin, consultou um dermatologista. Foi-lhe prescrito uma seleção de drogas, cremes dermatológicos e tratamentos para que sua cor de pele fosse alterada. John queria vivenciar na própria pele (literalmente) como era ser negro no sul dos Estados Unidos. Ele passou meses viajando por New Orleans e Mississipi e suas experiências foram descritas no livro “Black Like Me”, lançado em 1961.

Black Like Me, livro de John Howard Griffin
Black Like Me, livro de John Howard Griffin

A dedicação incondicional a uma experiência não é novidade no campo jornalístico-literário. Um dos primeiros ícones desse tipo de gênero aonde o autor se envolve completamente dentro do assunto estudado é Nellie Bly. Em 1887, a autora, usando o pseudônimo de Nellie Brown fingiu-se de louca, foi julgada insana e internada no hospital psiquiátrico Blackwell, em New York. Uma vez lá dentro, a autora parou imediatamente com sua atuação e se comportou da forma mais lúcida e natural possível, mas sem que fosse identificada com jornalista. Foram dez dias dentro do hospício, relatando todos os maltratos sofridos, as péssimas condições que se encontravam os pacientes e histórias fantásticas, de internos aparentemente mais sãos do que eu. O resultado se transformou em um aclamadíssimo artigo entitulado “Ten days in a mad-house” (de leitura altamente recomendável, podendo ser encontrado aqui) e chamou a atenção das autoridades para a forma como New York tratava seus loucos. No ano seguinte, Nellie lançou o artigo Around the world in seventy-two days, aonde ela se dedicou a reproduzir a obra de sucesso de Julio Verne e dar a volta ao mundo em oitenta dias (o ano era 1888). As experiências de Nellie a consagraram e marcaram definitivamente o estilo de jornalismo participativo.

A incrível geração de mulheres que fica discutindo sobre a incrível geração de mulheres

A geração incrível
A geração incrível

Vivian tem 34 anos. Está solteira ainda e sabe muito bem o porquê: é essa geração de homens que está completamente errada. A culpa não pode ser dela, que é uma mulher independente, tem um emprego de garbo na redação de um jornal daqueles que é distribuído de graça nos semáforos (e o povo resolve as palavras cruzadas e forra o chão do carro com seus artigos). Ela é uma mulher perfeita, que vai em passeata pelo futuro do país e se indigna justamente com todos os problemas sociais. A única coisa que Vivian não sabe é cuidar da casa. Ela pede pizza duas vezes por semana e tem uma empregada diarista que cuida dos afazeres dela. E é justamente por isso que os homens não a querem: Os homens procuram alguém que continue sendo a mãe deles, que lhes costurem as cuecas e façam massagem nas costas.

A culpa é dessa geração de homens, despreparada para um universo feminino tão evoluído.

Beber é o melhor remédio

Taí um protesto que eu iria!
Taí um protesto que eu iria!

Há muito tempo a medicina já permanece quase unânime em relação aos benefícios que duas taças de vinho diárias podem fazer ao coração. Mas, em defesa das outras biritas, não é só o vinho que pode trazer benefícios à saúde, mas qualquer tipo de álcool. A ciência nas últimas décadas vêm estudando a fundo o efeito das bebidas na saúde humana e os resultados apontam uma vida mais saudável para o pessoal que gosta de entornar um caldo.

No livro “Drop Dead Healthy“, o autor A.J. Jacobs narra sua saga ao tentar se transfomar na pessoa mais saudável do mundo. Ele segue conselhos e pesquisas fortemente embasadas e apresenta dados surpreendentes. O álcool é citado no livro como sendo um “vício saudável”, em uma lista que também englobava chocolates, video-games, sonecas e deixar a cama desarrumada.

Até a Bíblia se mostra a favor do álcool, de acordo com estudo feito por Daniel Whitfield, um enófilo cristão que fez um estudo exaustivo sobre todas as menções alcóolicas bíblicas. São 247 entre o novo e o antigo testamento; dentre elas apenas 40 referências negativas, totalizando 16%. As referências positivas são 145, o equivalente a 59%, e envolvem, entre outras, a abundância de álcool como um sinal da benção de Deus e a ausência dele como um sinal de uma maldição divina. Os 25% restantes são referências neutras. [Fonte: The Year of Living Biblically (A.J.Jacobs)]

Álcool faz bem. Cada vez mais pesquisadores vêm descobrindo isso. É sempre bom destacar que os estudos de benefícios de um goró obedecem uma curva gráfica ligeiramente complexa: O exagero pode ocasionar em alcoolismo e em efeitos não tão positivos à saúde, mas quem bebe com moderação apresenta menor taxa de mortalidade do que os abstêmios.

O conceito de moderação, entretanto, também varia entre os indivíduos e depende da bebida. No caso da cerveja, por exemplo, 600ml diários é uma quantidade que você pode entornar tranquilo. Mais do que isso já varia de pessoa para pessoa – porém, experiências próprias apontam que, quanto mais você beber, melhor ficam suas histórias.

Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #3

Um guia com os piores lugares para se comer mal sem gastar muito em São Paulo

Quickies
Ladeira Porto Geral, 14
Salgado
Custo total: R$2

Em um espaço de menos de quatro metros quadrados, no topo da ladeira Porto Geral, no centro, fica a menor lanchonete da cidade. Se é que um punhado de máquinas automáticas de salgados podem ser considerados uma lanchonete. O conceito foi trazido a São Paulo pelo empresário Marcus Vinicius de Lima, inspirado em uma rede similar holandesa, que teria feito um investimento de R$8 milhões na idéia. Em geral apenas um funcionário trabalha no interior das máquinas, repondo os salgados.

Mais direto impossível: as moedas são colocadas na máquina – que não dá troco, mas se você quiser, pode trocar seu dinheiro em outra máquina – e você abre a janelinha que tiver o salgado que parecer mais apetitoso ou menos repugnante, depende da sua sorte no momento. As descrições dos salgados se encontram no topo das colunas de janelas, e uma coluna pode ter mais de um tipo diferente de alimento, assim, pode ser um exercício de observação e astúcia escolher o salgado desejado.

Fui direto nas janelas de R$2,00, onde podia escolher entre o Kaasoufle, descrito como um pastel empanado de queijo cremoso ou o Bami, um suposto “Empalhado de talharini, frango e legumes”. Na minha humilde concepção, talharini era um tipo de macarrão, mas eu estava em uma época confusa da minha vida e provavelmente pediria ajuda para os universitários do Show do Milhão se tivesse que responder uma pergunta sobre pratos tipicamente italianos. Qual o problema do Quickies com coxinhas, esfihas de carne ou risoles de queijo? Até os croquetes de carne tinham sabores inusitados como goulash.

Depositei duas moedas de um real na máquina – o equivalente a duas refeições completas no Bom Prato – e, ainda meio confuso com o funcionamento de uma tecnologia culinária tão avançada, fui abrir a janelinha do salgado que parecia maior. A maçaneta estava quente e resistiu ao meu puxão, por isso hesitei. “É só puxar, senhor.”, disse um funcionário que acompanhava minha epopéia a uma certa distância, me deixando ligeiramente acanhado pelo repentino contato humano que não devia fazer parte da experiência.

Peguei o salgado, fechei a janela, cumprimentei o homem com um tímido “obrigado” e segui andando em direção ao Pátio do Colégio, enquanto mordia meu empanado. Eu estava certo: Talharini é um tipo de macarrão. É uma experiência inusitada: é como se eu tivesse pedido um prato para viagem, “mas ao invés de colocar numa marmita, você pode embrulhar ele em um invólucro de empanado?”

Meu salgado de macarrão
Meu salgado de macarrão

Comi o lanche como ele deve ser saboreado: com pressa, olhando para baixo, sem maiores interações com seres humanos, nem sequer olhar nos olhos de outras pessoas. O Quickies é claramente uma rede de fast food para pessoas que preferem comer um salgado requentado de gosto duvidoso do que ter que falar com desconhecidos, característica que surpreendentemente atinge uma boa gama de pessoas que eu conheço e que com certeza tem um público alvo vasto numa cidade como São Paulo. Em defesa da iguaria, o empanado ainda estava crocante e o recheio quente e levemente apimentado, apesar da estranheza inicial do macarrão.

Mas, se hoje ninguém mais estranha um pastel sabor pizza, pode ser uma boa tentativa para os inovadores pasteleiros de feira a criação de sabores como “spaghetti à la puttanesca” ou “penne all’arrabbiata”. Aguardemos.

***

Café Armênia
Rua Pedro Vicente, 177
Hamburguer com suco
Custo total: R$5

A poucos metros da saída norte do metrô Armênia em frente à entrada de um estacionamento, um trailer desponta com seu cardápio exposto em sua fuselagem (onde por falta de manutenção, todos os produtos custam 8,88). Duas cadeiras de plástico ficam em frente a duas grandes lixeiras, o que mostra que a posição da área de alimentação não foi muito bem planejada – ou foi planejada bem demais. Uma placa dizia “Proibida a entrada de homens sem camisa neste recinto”. Em qual recinto, se éramos servidos na rua?

Salgados e sanduíches ficam expostos em vitrines de vidro. Pães de queijo do tamanho de bolinhas de gude aglutinavam-se à direita (sete por R$1,00). Hamburgueres completos já preparados com queijo e salada se empilham não tão convidativamente atrás de um vidro. Optei pelo hambuguer, que parecia a especialidade da casa (R$3,00).

“Você vai querer prensado?”, perguntou a atendente, jovem e simpática. “Pode ser!”, respondi, achando que aquele negócio comprimido seria mais fácil de ser ingerido. Ela então primeiro colocou o lanche no microondas por 30 segundos – somente o suficiente para dar ao alface aquela aparência escura e consistência emborrachada. Depois, remanejou bandejas e equipamentos no apertado trailer para livrar espaço para a prensa, aonde colocou o lanche. “Tá bom assim?”, perguntou depois de um tempo de prensa utilizada. “Pode ser!”, repeti minha resposta, deixando claro que, se estava comendo ali, não tinha mesmo muitos critérios alimentícios.

Para acompanhar, pedi um suco Frutix de laranja com acerola (R$2,00). Ao meu lado, um homem que podia ter entre 40 e 80 anos que comia uma coxinha (R$2,00) e não tinha nenhum dos dentes superiores entre os caninos pediu um pouco do meu suco. Pedi um copo à atendente e servi aproximadamente 1/3 de meu vasilhame ao homem. Ele agradeceu e começou a explicar, em um dialeto de português quase incompreensível, que acabou de chegar do Ceará, não tinha dinheiro e estava ali esperando o cunhado dele buscá-lo, ou alguma coisa nesse estilo.

Peguei o pote de catchup (um pouco doce demais) e maionese (que tinha a consistência de um fluído não-newtoniano) e fui comer apoiado em uma alta mesa de madeira com o logo da cervejaria Ravache, apesar do lugar só vender Skol e Itaipava, enquanto apreciava o atendimento exemplar da moça que elogiava os avanços na educação do que parecia um cliente recorrente (“Muito bem! Pediu até por favor dessa vez!”, dizia ela).

O lanche não era nenhuma especialidade da hamburgueria nacional, mas também não era ruim como uma pizza vegana. Provavelmente eu esperava tão pouco dele que ele acabou me surpreendendo positivamente. O resto do meu péssimo suco avermelhado foi doado ao cearense que tive que abandonar e nunca saberei se ele foi realmente resgatado pelo cunhado.

Café Armênia
Lanchonete completa

+ MAIS +

Outros roteiros:

Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #2
Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #1

Para comer:

Quickies: Ladeira Porto Geral, 14
Café Armênia: Rua Pedro Vicente, 177
Estomazil: Em qualquer farmácia

Se você tem alguma sugestão de lugar ruim e barato, deixe aí nos comentários que ela será levada em conta.

Vida de caroneiro – Parte 2

Leia a primeira parte aqui!

A minha primeira experiência tentando pegar uma carona se deu em Portugal, em 2011. Com a idéia de visitar a cidade de Fátima, fiz o que qualquer turista desavisado faria em meu lugar: peguei um trem até Fátima. O problema é que a estação de trem fica a aproximadamente 20km da dita cidade e perdida no meio do nada (antes de chacotear os lusitanos, lembre-mo-nos que a estação Consolação fica na Paulista e a estação Paulista fica na Consolação).

Fátima. Tá vendo?
Fátima. Tá vendo como é no meio do nada?

Sem dinheiro e sem ânimo, permaneci com meu dedão esticado sob um sol relativamente abusivo na beira da estrada deserta que levava até a estação. Felizmente, não fiquei lá por muito tempo e fui logo levado por um português camarada a Ourém, que não era o destino final, mas ao menos tinham ônibus para completar o trajeto desejado.

A minha maior e melhor experiência de caronas, entretanto, foi (quase) completamente planejada.

Na época que eu morava em Paris, tive a idéia de visitar uma grande amiga em Rennes, a aproximadamente 340km de distância. Dinheiro, como sempre, era um grande problema e, tendo voltado de uma viagem pelo leste europeu aonde conheci uma garota que estava viajando de carona desde a Ucrânia, simplesmente pensei que, se uma alemãzinha adorável consegue viajar de carona na Romênia, eu também devo conseguir na França.

Vida de caroneiro – Parte 1

Na beira da estrada, com uma mochila nas costas, uma placa na mão e um dedão levantado. Paciência, sorte e um pouco de coragem. A carona é uma arte menosprezada por aqui, mas é reconhecidamente um dos meios mais baratos (e demorados) de se viajar em lugares como Europa, Estados Unidos ou Austrália.

Em países como a Alemanha, ela é tão organizada que existem até serviços que ajudam caroneiros a se encontrar com motoristas (como o Mitfahrgelegenheit – http://www.mitfahrgelegenheit.de/). Em muitos países, porém, a carona é ilegal, o que não quer dizer que ela não exista – aonde há um mochileiro tentando viajar, há um dedo em riste na beira da estrada.

Uma placa na mão, um dedo levantado e paciência...
Uma placa na mão, um dedo levantado e paciência…

Minha primeira experiência com caronas foi inusitadamente do lado do motorista (mas do lado inglês, diga-se de passagem). Durante uma viagem à Nova Zelândia, com minha prima, alugamos um carro e saímos de Christchurch em direção ao belíssimo Lake Tekapo. Logo na saída da cidade, assim que pegamos a estrada, vimos no acostamento dois jovens estilo hippie, cabelos dignamente despenteados, roupas largas e chinelos. Tocavam violão e mantinham a seus pés uma placa indicando o destino: uma cidadezinha que, pelo que podíamos ver no mapa, ficava na região de Ashburton, meio do caminho para nós.

A marcha dos satisfeitos

Texto originalmente publicado na revista Piauí – edição 87 (dezembro de 2013).
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-87/voz-rouca-das-ruas/a-marcha-dos-satisfeitos
Ilustração por Fido Nesti
Ilustração por Fido Nesti

A hora e a vez daqueles que não têm do que reclamar

Desde junho, o Brasil tem visto um incontável número de manifestações com as mais diversas justificativas e reivindicações. Tudo começou com os protestos contra o aumento da tarifa do transporte público, mas logo surgiram outras demandas como o fim da corrupção, a necessidade de reforma política, o repúdio à pec 37, a desmilitarização da polícia e a democratização dos meios de comunicação, passando por questões petrolíferas, financeiras, educacionais e caninas. Nunca foi tão fácil ser um Popular Exaltado (piauí_55, abril 2011), aquele sujeito que cospe, xinga e faz discurso em cima do caixote, julgando-se permanentemente ultrajado.

Nos últimos meses, tivemos uma passeata pela volta dos militares, uma marcha da família contra o comunismo, uma tentativa de levitação do Palácio dos Bandeirantes e um ato contra a Copa de 1954.

Só nos faltou uma coisa, e é o que viemos aqui reivindicar: uma passeata que contemple a discreta (e sempre excluída) minoria satisfeita.

Não estamos nos referindo aqui aos latifundiários, aos banqueiros, aos donos de empresas de ônibus e aos que gastam 50 mil reais por noite numa balada, já que estes têm cada vez mais do que reclamar: o aumento do iptu, a ameaça do metrô em Higienópolis, a popularização da rúcula com tomate seco, a revista Veja que passou a vir fora do plástico; tudo isso é fonte de stress e incerteza para a fatia mais abonada da população, que vem perdendo seu lugar ao sol para os beneficiários do Bolsa Família.

Falamos daqueles cinco ou seis indivíduos que nunca têm do que reclamar, que estão sempre contentes com a vida em termos gerais e não se deixam abalar por congestionamentos, filas e vazamentos nucleares. Oriundos dos mais diversos estratos sociais, o que não parece fazer diferença, são sujeitos tranquilos e sempre sorridentes, absolutamente confortáveis com sua condição sobre a Terra. Eles não possuem porta-voz, não têm agenda de reivindicações e nem motivo para protestar. Por isso mesmo devem sair à rua, precisamente para dar amplidão à sua distinta voz, incompreendida e marginalizada pelos que estão sempre achando sarna para se coçar.

Isso não quer dizer que sejam alienados e reacionários; apenas não veem necessidade de se cansar com infinitas demandas e embates hostis. São estoicos e não botam a culpa em ninguém; acham graça em tudo o que veem e riem diante das dificuldades.

A marcha dos satisfeitos acontecerá numa tarde de sol, de chuva ou de terremoto (tanto faz) e até o momento conta com as presenças confirmadas do meu sobrinho de 4 anos, um programador de computadores, um carteiro, uma jovem francesinha e três senhoras nipônicas plenas de serenidade existencial. (Taxistas e barbeiros estão intrinsecamente impossibilitados de participar.) Será uma marcha pacífica, amigável e unânime, repleta de cartazes com os dizeres: “Estamos satisfeitos”, “Nada a reclamar”, “Estou bem, e você?”, entre outros.

Ninguém se queixará de fome, sede, joanete, vontade de fazer xixi. Alguns caminharão com as mãos nos bolsos, chutando pedrinhas e assobiando uma velha canção. Outros, mais combativos, repetirão bordões como: “Eu já falei, vou repetir/ Eu já falei, vou repetir.”

Em vez de Black Blocs, a linha de frente será formada por uma célula de hare krishnas tocando mrdanga e dançando de sandálias, felizes da vida. Logo atrás, um grupo de monges franciscanos e de idosos em excursão, seguidos por seus cachorros.

O trajeto da passeata não será previamente definido, mas para onde for está bom. Rumores darão conta de que o grupo pretende andar até Pouso Alegre ou Várzea Feliz. Eles caminharão pela calçada e apreciarão o belo trabalho efetuado em termos de manta asfáltica.

Contudo, o cansaço irá provocar baixas. Uma simples bolha no pé pode incomodar certo passante que, uma vez insatisfeito, será forçado pela própria consciência a ir embora. Braços cansados de erguer cartazes ameaçarão durante todo o trajeto a resistência física dos participantes, que não cederão sequer a um inconveniente fraquejar do bíceps. Não haverá queixumes constrangedores como o registrado numa manifestação recente, em que um militante exaurido pediu à linha de frente: “Ô, pessoal, vamos parar por aqui, fechar a rua num protesto sentado… Sério que vocês querem andar mais?”

Não haverá dissidências, discordância de pautas e nem líderes do movimento. A massa acatará com alegria toda sugestão de rota indicada pela polícia. Ao passarem diante de hospitais, todos farão silêncio e rezarão pelos enfermos.

Durante a passeata, aliás, ninguém será hostil com os transeuntes. Em vez de: “Quem não pula quer tarifa”, a turba irá ponderar: “Quem não pula, tudo bem! E quem pula, bom também!”

Partidarismo não será um problema: a marcha contará com a presença apenas de partidos políticos totalmente satisfeitos, o que não deve existir na sociedade atual.

A grande imprensa irá registrar uma única ocorrência de discórdia: um sujeito que, convenhamos, começou a elogiar demais tudo o que estava aí, cruzando perigosamente a linha de quem possui uma reivindicação. Ele portava um cartaz com os dizeres: “Estou tão feliz que não me importaria se piorassem um pouco a situação econômica.”

Sua postura causou celeuma imediata e convidaram-no a se retirar do ato, junto com os que reclamaram do cartaz.

A polícia estará presente, e terá seu trabalho efusivamente elogiado. Se houver repressão, será recebida com grande disposição de espírito. “Este gás lacrimogênio realmente limpou minhas vias aéreas”, dirá um. “Mais pra esquerda”, dirá outro, enquanto apanha com o cassetete nas costas. A manifestação se dispersará por caminhos que manterão todos satisfeitos, e terminará na hora em que acabar.

Numa época em que reclamar e odiar é algo tão popular, nossos bravos satisfeitos estarão por aí, verdadeiros heróis da sociedade. Serão criticados, chacoteados por humoristas e receberão títulos ofensivos, mas não se importarão. Ao contrário: ficarão lisonjeados.

No dia seguinte, o prefeito mencionará o ato em pronunciamento à tevê e afirmará enfaticamente que suas portas estão abertas para toda e qualquer crítica do grupo.

Escrito em conjunto com:
Vanessa Barbara

Vanessa Barbara

Este texto foi escrito em parceria com Vanessa Barbara.
Vanessa é jornalista e escritora, colunista do International New York Times e da Folha de S.Paulo. Publicou Noites de Alface, da Alfaguara e comanda o editorial folhoso A Hortaliça – http://www.hortifruti.org/

 

O juiz facilmente influenciável

Segue o jogo! Segue o jogo!
Segue o jogo! Segue o jogo!

ATO 1

Um forte apito é soado e a cortina se abre. No centro do palco, um juiz de futebol, camisa amarela e calção preto, cabelo cheio de gel penteado para trás. As pernas flexionadas, uma mão segurando o apito na boca e a outra esticada, apontando com quatro dedos o local da falta.

Entra um outro homem, um jogador vestindo a camisa 7 do time vermelho. Se aproxima do juiz, a mão direita levantada empunhando autoritariamente um cartão imaginário.

Camisa 7 vermelho: Pô! Falta pra cartão, hein, juiz! Pra cartão!

Juiz: É… Talvez tenha sido…

O juiz faz um gesto chamando outro jogador. Entra no palco um outro jogador, o camisa 3 azul, as mãos na frente do corpo simulando um formato redondo.

Camisa 3 azul: Não, professor! Foi na bola, pelo amor de Deus! Foi na bola! Nem falta foi!

Juiz: Não me venha com essa, olha o cara caído ali!

3 azul: Ele se jogou! Eu não fiz nada, professor.

Juiz (virando-se para o outro jogador): Olha aí, ele disse que não foi nada. Vamos dar sequência no jogo então. – (disse enquanto erguia os dois braços simbolizando que mandaria o jogo seguir)

7 vermelho: Sequência? Não, como assim! Foi falta, lógico que foi! Olha lá! Deu fratura exposta! Olha o osso do cara saindo pra fora! – (apontando furiosamente para o canto do palco onde a platéia imagina que esteja o jogador caído)

Juiz (olhando na direção do homem que imaginariamente atua se contorcendo de dor no chão): É… parece ter sido algo sério, foi falta sim! – (disse enquanto apontava novamente a sinalização de falta)

Outros jogadores de ambos os times vão se aproximando, formando uma rodinha em torno do juiz.

3 azul: Peraí, professor! Não, não foi falta não, vamos conversar! Eu fui na bola e o cara se jogou!

7 vermelho: Se jogou nada, porra! Como ele está ali com a fratura exposta então? Olha lá o osso saltando da perna, olha quanto sangue!

Juiz (dirigindo-se para o 3 azul e apontando com o polegar para o 7 vermelho): Bons argumentos! Olha aí!

3 azul: Tá bom, talvez eu tenha acertado nele sem querer! Mas foi legítima defesa!

7 vermelho: Como pode ter sido sem querer e legítima defesa ao mesmo tempo?

3 azul: Ia ser sem querer, mas olha lá, professor: o cara apontou uma arma pra mim, aí eu acertei ele em legítima defesa!

Juiz (dirigindo-se para o 7 vermelho e apontando com o polegar para o 3 azul): Bons argumentos! Olha aí!

7 vermelho: O cara vem me falar de apontar arma, mas quem entrou em campo com uma peixeira na cintura foi ele!

3 azul: Também foi legítima defesa! As declarações do cara na imprensa era que ia destruir a gente!

7 vermelho: Ele falou isso só como réplica por você ter chamado a mãe do nosso treinador de puta.

3 azul: Se a mãe do seu treinador não tivesse passado sífilis para o meu pai, eu dificilmente chamaria ela de…

Cortinas se fecham. Fim do ato 1.

Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #2

Um guia com os piores lugares para se comer mal sem gastar muito em São Paulo

Tudo isso por um real
Tudo isso por um real

Bom Prato
Rua 25 de março, 166
Refeição completa
Custo total: R$1

Saindo do metrô Sé e descendo a Rangel Pestana encontramos o primeiro indício que estávamos no caminho certo do Bom Prato: um mendigo pedindo um real para o almoço no local. Querendo me enturmar com a clientela local, estendi uma moeda ao rapaz: “Quero ir no Bom Prato também. Posso ir com você?”.

O mendigo prontamente retirou a moeda de meus dedos e disse que precisava ir buscar a patroa dele ali em cima, não sem antes nos indicar o caminho “Fica ali, ó… Esquerda e depois esquerda de novo, na esquina.” e partiu. Sendo dispensado por um mendigo; essa é minha vida.

Eram 11:50 da manhã quando chegamos no salão do Bom Prato. Ainda não havia filas. A casa abre às 11h e o almoço é servido até o término da cota de cada unidade (que varia entre 1200 a 2500 refeições). Desde 2011, as unidades também oferecem café da manhã a R$0,50.

O Governo do Estado subisidia R$3,00 do custo total da refeição, restando ao usuário pagar somente o valor de R$1,00 pelo prato bem servido. Paga-se o valor na entrada, onde recebe-se um cartãozinho que é entregue logo ao lado. Uma pia após a catraca permite que os clientes com um mínimo de asseio lavem as mãos e, posteriormente, seguem para a fila das refeições. Nunca fui preso, mas já comi no bandejão da USP e essa é a comparação mais próxima que eu consigo imaginar para o serviço. Meu prato de porcelana foi inicialmente agredido com uma concha de arroz e uma de feijão simultânea. Seguindo a fila, conchas consideravelmente menores de um bem-temperado frango e berinjela são despejadas por cima. Não há espaço para recusas. Antes que você consiga pensar, a comida é jogada na sua frente. Um pouco de alface picado, uma banana, um copo de plástico de um suco vermelho e um pãozinho meio deformado completam a bandeja.

Arrumamos um lugar no salão onde a movimentação de uma imensa variedade de pessoas de todos os tipos e classes revezavam-se sentando, comendo e saindo. A comida é incrivelmente boa, servida quentinha, melhor que a maioria dos PFs de padarias. A combinação nutritiva é uma das coisas mais saudáveis que eu comi por conta própria no ano.

A Convenção de Kitzbühel

Era uma quarta-feira, 05 de julho, quando meu avião vindo de Estocolmo pousou em Munich.

Ridiculamente linda cidade.
Kitzbühel: ridiculamente linda cidade.

Viajava a trabalho, vindo de um projeto na Suécia para uma convenção na pequena cidade de Kitzbühel, na Áustria. A empresa que me empregava em Londres havia comprado uma outra pequena companhia alemã de envio de e-mails, e essa convenção foi organizada de forma que ambas se conhecessem. O encontro envolvia praticamente toda a equipe da empresa comprada e uma pequena parcela da alta cúpula da multinacional aonde eu trabalhava, incluindo todos os meus superiores europeus – por algum motivo obscuro, eu também estava nessa seleta lista de importantes empresários.

Assim, no aeroporto de Munich, um ônibus fretado esperava funcionários vindos de várias partes da Europa, para partir estrada afora rumo à Áustria, aonde um hedonista hotel cinco estrelas (ou algo próximo disso) estaria nos aguardando para que aproveitássemos de suas confortáveis almofadas e jardins com vista para os Alpes sob o pretexto de estarmos trabalhando. Essa é a vida da alta cúpula empresarial européia (que, por sinal, eu abandonei para vender cerveja na Lapa).

Alguns pequenos atrasos nas chegadas fizeram o ônibus atrasar um pouco sua partida. Um inconveniente trânsito na E45 e uma conveniente parada em um posto de gasolina para comprarmos cerveja causaram um atraso ainda maior e fizeram com que chegássemos no hotel aproximadamente duas horas depois do previsto.

“Como estamos bem atrasados, vocês somente deixem suas malas nos quartos e já desçam até o restaurante para o jantar, antes que ele feche.”, disse meu chefe enquanto todos fazíamos o check-in. Eu, porém, tinha algum e-mail importante e fútil para responder (eu sei que era importante porque eu posterguei um jantar gratuito para respondê-lo e eu sei que era fútil porque eu não me lembro o que era), e fui praticamente o último funcionário a chegar no restaurante. Naquela altura, todas as mesas já estavam praticamente ocupadas e o único lugar vago era na mesa dos chefes.

Como sempre fui integrante assíduo da baixa classe de proletariado e como provavelmente eles estariam falando de trabalho, me incomodou um pouco aquele assento. Três níveis hierárquicos acima de mim dividiam a mesa e, por mais que eu insista que não me importo com autoridades, tentei manter uma pose e comportamento respeitáveis. Em vão, obviamente.

Agrega valor
Agrega valor

Fui até o buffet self-service, aonde travessas ainda alinhavam-se convidativamente. Peguei um dos pratos de uma pilha disponível na mesa de saladas e mesmo ele parecendo muito pequeno, era o único que eu tinha em vista naquele momento. Me servi de alfaces, tomates e passei para a bancada com os pratos quentes. O problema é que os nomes de todas as comidas estavam em alemão e, apesar de saber o que é bier, chucruts e wurst, a variedade oferecida iria desafiar muito mais a minha habilidade de ler amontoados de consoantes aparentemente sem sentido. Fui me servindo, então, de forma aleatória. Peguei um salsichão branco (alguma-coisa-wurst) e um punhado de alguma carne. Me servi também de uma colherada de um macarrão-parafuso que me apeteceu e, na falta de tempero, joguei por cima o molho vermelho ali do lado da travessa, que, obviamente, só podia ser molho de tomate.

Chegando no final da bancada, antes de voltar, uma surpresa. Do outro lado, tendo passado desapercebido por mim, estava o começo do buffet. Na afobação de ir buscar comida antes que o restaurante fechasse, eu não tinha visto aquela seção. Nela, haviam as entradas, pães, uma variedade ofensiva de queijos e, obviamente uma pilha de pratos adequados. Se eu tinha achado meu prato pequeno, era porque aquele era o prato para saladas – que, num lugar tão garboso, evidentemente não devia ser colocada no mesmo receptáculo que a comida quente. O que fazer numa situação dessas? O espírito pedreiro recomendava simplesmente virar o conteúdo daquele prato minúsculo em um prato decente e esconder meu prato de saladas usado debaixo da toalha. O requinte me impediu de fazer maiores estultices em um lugar tão fino, então mandei às favas os pratos maiores, adicionei ainda algum queijo mal-cheiroso no topo de minha montanha de comida alemã e voltei à mesa da chefia, imaginando que meu minúsculo prato amontoado de todos os estilos gastronômicos misturados iria me colocar em meu devido lugar, uma camada abaixo de meus chefes elitistas com sua autoridade demonstrada pela linha de porcelanas adeqüadamente maior.

Ainda me levantei uma vez mais para pegar um copo e aproveitar-me da jarra de suco de laranja que estava em nossa mesa. Peguei então uma taça que estava em meio a outras em uma mesa próxima. E, já que estava com o prato errado, para combinar, quando retornei percebi que estava com o copo errado também, e, enquanto todos tomavam suco em copos baixos e retos, eu me servia no que agora eu via que era uma taça de vinho, numa combinação um tanto quanto pitoresca com meu prato minúsculo.

Como se isso não bastasse, minha refeição pareceu ainda mais ridícula quando eu percebi que o suposto molho de tomate que coloquei em cima do macarrão e da salsicha era, na verdade, geléia de framboesa. Por sorte, meus chefes europeus deviam estar acostumados a culturas ridículas e não teceram comentários sobre minha peculiar combinação de sabores e porcelanato, demonstrando assim uma elegância coerente ao cargo que ocupavam. Eu, porém, me sentia num episódio de Mr. Bean, onde qualquer comentário ou ação que eu tomasse só aumentaria a vergonha alheia de minha situação.

Pelo menos, os outros dois dias a trabalho na Áustria se mostraram divertidos e produtivos, numa excelente combinação de tardes de palestras e reuniões com noites de baladas fechadas e jantares suntuosos. Após esse primeiro jantar, tentei manter novamente uma certa distância da alta hierarquia da empresa e, o máximo de babaquice que eu conseguir fazer durante o resto de nossa estadia foi derramar vinho tinto na camisa do gerente europeu.

A essa altura, eles já deviam saber que é prudente tomar uma certa distância de mim.

Até os manequins austríacos parecem contrariados com minha presença.
Até os manequins austríacos parecem contrariados com minha presença.