De Sopa, Estupro e Concordia

Diversos portais americanos estão engajados em uma campanha contra uma lei americana de anti-pirataria na internet, a SOPA. Entre os apoiadores da SOPA, estão a Knorr, a Maggi e mamãe. Contra a SOPA, também estão Mafalda e as lanchonetes fast food.

A Wikipedia hoje está offline, em protesto. Já não faz diferença pra mim, agora que eu estou formado e não preciso mais copiar trabalhos. Só mantenham o redtube no ar.

A internet é algo fascinante. Consegue tirar o Daniel da casa, trazer a Luiza de volta do Canadá mas só não consegue tirar o Sarney do Senado.

***

E recomeça o Big Brother… Eu percebi que o BBB recomeçou pela quantidade de mensagens que foram postadas no meu facebook de pessoas pedindo para não falar de BBB. Bom, eu também faço parte daquela parcela de população que não está nem aí para o Big Brother, um programa que não passa de uma perda de tempo e um abu…COMO ASSIM, ESTUPRARAM A MENINA?

Depois de anos assistindo a filmes como Bela Adormecida e Branca de Neve, finalmente as pessoas começam a adquirir a consciência que não é legal abusar das menininhas enquanto elas estão dormindo. Se o problema foi se aproveitar da bebedeira da garota, então pode me mandar pra cadeia também.

Branca de Neve

Só porque o cara é príncipe, ele pode?

Até a polícia, que parece que não tinha nada pra fazer, resolveu ir até a casa pra tomar providências. O máximo que poderiam fazer era tirar o cara de um lugar onde ele estava sendo vigiado 24 horas por dia e colocar ele em um lugar onde ele seria vigiado 24 horas por dia. Daniel ia ser a primeira pessoa que poderia afirmar com certeza qual é a casa mais vigiada do Brasil: A do Big Brother ou a de Bangu II. Entre deixar o cara no Big Brother ou na cadeia, deixa no BBB, que ao menos não é dinheiro público que tá sustentando o infeliz. Continuar lendo

Carta aberta de repúdio à Escolinha do Professor Raimundo

Morreu Chico Anysio. Bom, ainda não morreu, mas esse blog precisa de atualização e o cara tá demorando demais, lá em cima do telhado só esperando pra ser puxado. Seria uma surpresa enorme se ele vivesse a tempo de assistir O Hobbit.

É inegável que Chico Anysio foi um nome notável no humor nacional, desde seu início de carreira copiando e traduzindo as piadas de grandes nomes do humor americano e inglês, mas também por ter colocado no mundo centenas de personagens (e filhos) engraçados ou não. Ele também colocou no mundo o Bruno Mazzeo, e não tenho certeza se ele merece perdão por isso, mas alguém que casou com a Zélia claramente deve ter algum problema sério de conduta.

Chamada para Raimundo

Chamada para Raimundo... Porque diabos o professor tem um telefone na sala de aula?

O auge de sua carreira e criatividade foi, em minha opinião, a Escolinha do Professor Raimundo. Nos anos 90, a atração conseguiu um horário nobre diário na Globo, onde teve a sua melhor fase (qualquer exibição antes disso deve ser encarada como completamente irrelevante, pelo fato de eu não ter lembranças da época). Apesar do sucesso, muitos pontos do programa ainda me causam um certo incômodo. Continuar lendo

Violência animal

Na mesma semana que a prefeitura de São Paulo decidiu alugar 10 mil tablets pelo preço que compraria 53 mil e que os vereadores de diversos municípios confirmaram o aumento do próprio salário, a população brasileira tem se mostrado indignada.

Mas não com isso. O problema revoltante é o caso isolado de uma mulher que espancou um cachorrinho.

Esse gato tá fudido!

Como agressão a animais é coisa que dá ibope, então vai lá… 5 casos de violência animal que ninguém comenta:

Cachorra é obrigada a assistir Ana Maria Braga e ouvir piadas de papagaio

A cachorra “Belinha” vem sofrendo imensos maus tratos em uma emissora de TV, onde todas as manhãs é submetida a sessões de tortura que envolvem em obrigar a poodle a assistir o programa de Ana Maria Braga e, em certas ocasiões, até interagir com um papagaio fantoche. “Vou me mudar para Goiás; os cachorros lá não sofrem tanto”, teria confessado a cachorra para a revista “Fuças”. Continuar lendo

Dose

- Você tá tumultuando aqui e não pode ficar aqui não!

- Hein?

- Eu disse que você tá tumultuando aqui e não pode ficar aqui não!

- Meu senhor, você sabe com quem você tá falando?

- Um espertalhão, é?

- Eu sou o garçom, porra!

- Ah… Nesse caso me dá mais uma cerveja!

Aquilo já era demais. Mathias não era pago praquilo. Ele olhou ao seu redor pelo bar onde trabalhou nos últimos dois anos. O cenário era de caos. Aquilo lhe dava asco. Sorriu ao pensar que caos e asco eram anagramas. Começou a pensar em outros anagramas possíveis daquelas letras… “caso”, “soca”, “ocas”… Talvez ele tivesse encontrado a palavra com o maior número de anagramas do mundo.

- Ô campeão! Uma cerveja! – o chamado lhe acordou de seu devaneio linguístico. Acidentalmente ele olhou para o cliente. Um erro. Mathias gostava de passar pelas mesas com o olhar fixo no horizonte, ignorando todos os chamados, anotando mentalmente as alcunhas pelas quais era chamado. “chefia”, “bigode”, “amizade”, “diretoria”, “barão”, “Isvêncio”, “malandragem”, “Mathias”. Ele odiava quando os clientes o chamavam pelo nome: era mais difícil ignorar.

- Chefia! Campeão!! Cervejaaaa!!! – Mathias começou a divagar se não estava já divagando demais quando percebeu que aquilo ia levar a um ciclo terrível, então respondeu:

- Senhor, o senhor não acha que já bebeu demais não?

- Acho sim, obrigado por perguntar! Pode me dar mais uma cerveja, por favor?

- Olha, talvez não seja apropriado… ei! ei! Sai daí!

A conversa teve que ser interrompida para que Mathias interrompesse um bêbado que se debruçava por cima do balcão e bebia diretamente da torneira da choppeira. Depois tratou de expulsar um senhor idoso que estava na adega, tratando de servir-se de uma dose de tequila por conta própria, derrubando sal em absolutamente todo lugar. A situação estava incontrolável. Encontrou o outro garçom, Johnny, caído ao fundo da cozinha ainda com sua garrafa de Natasha em mãos. Um anão de terno estava amarrado em cima da geladeira enquanto uma mesa com voluptuosas garotas e admiráveis gordões já estavam vermelhos de tanto rir.

Era demais. Mathias tirou seu avental e o deu a um magrelo que estudava o funcionamento de um abridor de garrafas “Pega. Você é o garçom agora.” Dirigiu-se aos fundos, entrou na sala do dono sem bater. A sala não passava de uma despensa, com a parede repleta de pôsters centrais de revistas masculinas e calendários pregados, um por cima do outro desde 1936. O dono jazia dormindo em sua cadeira, ao lado de uma fétida mesa em decomposição sobre a qual descansavam duas garrafas de uísque quase vazias. Socou a mesa e gritou furioso:

- Chega! Não aguento mais gente bêbada! Eu sou um trabalhador saudável, faço exercícios todas as manhãs. Corro. Não tomo nem refrigerante. Minha profissão vai contra tudo aquilo que eu tenho como princípios. Não aguento mais servir as pessoas para que elas se embebedem. Estou me demitindo. – O dono não acordou.

Saiu do bar pensando em chegar em casa, tomar um banho e preparar para si mesmo o melhor omelete de queijo que pudesse. Era uma celebração. Sem mais delinqüentes alcóolatras durante a noite!

…O omelete de queijo, entretanto, nunca chegou a ser preparado. Atravessando a rua ao sair do bar, Mathias foi atropelado e veio a falecer algumas horas depois no hospital. De acordo com a perícia, o motorista estava embriagado.

Xeque mate

Dos primórdios da internet

Duas pessoas totalmente aleatórias caminham por uma rua fictícia com alguma discussão randômica. “Qual a capital da Samoa Americana?”, por exemplo. Um insiste que é Pago-Pago enquanto outro tem a certeza absoluta que é Fagatogo. Em determinado momento, um dos discussionistas saca seu smartphone e, alguns segundos depois, lá está: A capital é Pago-Pago, com cerca de 12000 habitantes. Pronto, discórdia resolvida. É certo que o outro chato inconformado pode pegar também o seu smartphone e argumentar que Fagatogo é a capital porque é onde tem a sede do governo, mas isso só demonstra que eu escolhi um exemplo de bosta para ilustrar o que eu queria demonstrar: A onipresente tecnologia está nos destruindo aos poucos.

Em tempos de outrora, discussões como essa (ou mais simples) se estendiam por meses, até alguém finalmente ter a decência de consultar o Atlas-1992 em sua biblioteca particular – aquele que você ganhava se comprasse o jornal por 3 anos seguidos e juntasse os 4250 selos naquela cartela vagabunda que ficava na gaveta da sala, guardada como se fosse um item sagrado religioso.

Família unida...

Era tudo mais divertido.

Estamos criando uma próxima geração de acomodados. De indivíduos que não sabem procurar no jornal os filmes que estão passando no cinema. De crianças que atingem a adolescência sem ter aquela timidez envergonhada de quando um(a) amiguinho(a) do sexo(a) oposto(a) liga para casa e seu pai(a) atende o telefone. Uma geração de crianças de 7 anos que trocam celulares e são mayors do playground no foursquare. O escorregador fica vazio, mas você pode vê-los ali sentados na caixa de areia, cada qual em uma fase diferente de Angry Birds.

Continuar lendo

Divago 5

Sem mais delongas desta vez. Quanto mais rápido você livrar sua consciência da leitura dessa merda, mais rápido você vai poder dar refresh no seu facebook.

Obama Bin Laden encontra Barack Osama

Obama e Osama

Esse Osama é uma figura!

Após morte de terrorista, Barack Obama e Bin Laden brasileiros selam a paz

http://noticias.r7.com/sao-paulo/noticias/apos-morte-de-terrorista-barack-obama-e-bin-laden-brasileiros-selam-a-paz-20110504.html

Heterofobia

Fui acusado de homofobia por um polêmico texto que escrevi ao Papo de Homem. Como posso ser homofóbico se sou são-paulino?

Diálogos politicamente-corretos #1

Rapaz encontra mulher grávida:

- Fabi! Fiquei sabendo que você tá grávida! Parabéns!

- Obrigada!

- Quantos meses?

- Sete semanas.

- E já sabe o sexo da criança?

- Ah! Não vamos impôr nada. Deixe que ela decida por si só. Não queremos exercer nenhuma pressão! Continuar lendo

Primeiros dias em Londres

Parlamento

O Big Ben está começando a entortar porque o parlamento é, na verdade, feito de cortiça...

Foram seis divertidos meses que eu passei em Portugal. Quando eu parti da península Ibérica, no começo de setembro, com a idéia de fazer um mochilão pela Europa com amigos, eu já não tinha pretensão nenhuma de voltar. Assim, eu adquiri um problema: eu ia terminar a viagem em algum lugar aleatório e terrivelmente longe de onde ela começou. E, sendo uma viagem com gente jovem, forte e maluca, não fazia sentido carregar mais pertences do que aquilo que coubesse em meu mochilão de viagem. Então, coloquei em minha outra mala todos os pertences que eu achei que não precisaria (calças de neve, grossas blusas de frio, uma tablet de desenho, tomadas extras para o falecido macbook, alguns livros que eu ainda não li e quase todas as roupas sociais que eu tinha, exceto por uma camisa que deixei na mochila para se surgisse uma oportunidade de emprego no meio da viagem), com os planos de despachar essa mala para algum lugar que fosse mais próximo do meu futuro desconhecido destino.

Entre as alternativas que eu tinha, envolviam uma tia em Paris, um amigo na Bélgica e um amigo na República Tcheca. Meus planos eram mais obscuros do que programação do SBT, mas eu tinha uma forte propensão para ir à capital francesa com o objetivo de aprender francês e comer baguete. Lá se foi então minha mala conhecer a França. E lá fui eu conhecer o resto da Europa…

Então, Londres

O relógio da torre marcava 5h40 quando eu saí da casa de meus tios em Hengelo, na Holanda. Era uma segunda-feira, 10 de outubro de 2011 e eu estava cansado. Nos trinta dias que se passaram desde minha partida de Portugal, eu havia visitado cinco países e uma oktoberfest com três grandes amigos que vieram do Brasil (Andrey, Gabi e Ormeni, SEUS LINDOS!), numa eurotrip mais divertida do que falar mal de ex. Quatro dias antes eu tinha me despedido deles em Amsterdam e, sem outro destino, parti em direção à casa de meus tios, que estavam se mudando na altura para a Holanda para viver lá a trabalho por um tempo.

Torre de Hengelo

A torre de Hengelo

Estava realmente muito frio. Uma garoa fina caía, mas eu não achei que fosse o suficiente para abrir meu recém adquirido guarda-chuva. Havia comprado-o um dia antes: eu sabia que ir para Londres sem guarda-chuva é como ir para o Rio de Janeiro sem seguro de vida. Além de minha ferramenta proteccional contra água caída do céu, eu usava duas camisas, uma calça jeans absolutamente nova (uma vez que minha velha calça havia cedido por completo ao furo que já tomava conta da região glútea) e o mesmo par de botas e a mesmíssima blusa que eu usava quando cheguei em Lisboa, exatos sete meses antes. Continuar lendo

A vez da rúcula

Isto é uma resposta à deselegante picardia escrita pela genial (e lindinha) Vanessa Barbara. Seu texto (o dela, não o seu; a não ser que seja a própria Vanessa que estiver lendo, aí seria efetivamente o seu) é preconceituoso, esquerdista e ruculofóbico, a despeito de ter sido tão eximiamente bem escrito. E, por mais que me doa uma acusação deste nível, é importante deixar claro que a obra da supracitada jornalista é recheada de inverdades.

Todo mundo gosta de uma boa polêmica, por mais que afirme o contrário. Essas grandes questões acalentam as discussões nas mesas de bares, nos programas desportivos, nas mesas redondas televisivas e destroem alguns casamentos e amizades de anos. Mas, por conta de uma característica própria do ser humano que adora tomar partido em alguma coisa, convém sempre elas serem discutidas.

“iPhone ou Android?”, “Jessica Rabbit ou Lola Bunny?”, “Votar no Maluf ou atirar-se na linha do trem?”, “Na sua casa ou na minha?, SUA LINDA.”… Eu adoraria fazer uma síntese enumerando diversas questões desse tipo, mas percebi que estava praticamente copiando o argumento introdutório rival, então vou passar logo à questão “Agrião ou rúcula?“.

Vamos às brássicas:

O agrião, é bom deixar claro, sempre foi uma hortaliça de cunho elitista, presente em grandes banquetes reais dos séculos passados. É um vegetal tão fresco que sua parte folhosa só começa depois de um longo caule, como se tentasse ficar sempre por cima. A rúcula é o exato oposto: uma folha serrada se extendendo junto com o caule, como se toda a planta quisesse dizer “Estamos juntas nessa! Vamos até a terra buscar nossa seiva!”

Todos amam rúcula!

Todos amam rúcula!

A rúcula é viril, é inteligente, é forte e dominante. Foi banida de mosteiros porque acreditava-se que era afrodisíaca. E talvez realmente seja. O consumidor típico de agrião pode até passar uma mensagem fofinha, daquelas que o Greenpeace ou a PETA tentam vender em suas campanhas. Mas é o apreciador de rúcula que vai revolucionar  o mundo. O comedor de rúcula deixa uma impressão de “Não estou satisfeito com a atual situação do planeta e vou fazer alguma coisa para mudar!”.

A rúcula não vai murchar e tornar-se intragável se você quiser adicioná-la em sua pizza. Ela vai para o forno com uma felicidade de fazer inveja à muzzarela e volta à sua mesa como se dissesse “Me chama de caprese e me devora!”. É a salada dominante. É o folhoso sociável, bem aceito com a linguiça do churrasco, com aquele sanduíche de queijo minas, com uma degustação hedonista de queijos e vinhos finos ou até como apetrecho ilustrativo em alguma sobremesa mais pitoresca.

A rúcula não é só povo. Ela também é classe média, classe alta e classe baixa. Ela nasce nas juntas de calçadas como se quisesse servir a todos.

Obrigado, rúcula! Algumas pessoas podem não ver que você está se esforçando para deixar nosso mundo um lugar melhor; mas você está fazendo a sua parte!

Eu sou tão chato…

"Aquele não está suficientemente oval"

  • Eu sou tão chato que atendente de telemarketing desliga na minha cara.
  • Eu sou tão chato que quando eu ando pelos mercados populares, os vendedores me enxotam da tenda deles.
  • Eu sou tão chato que se eu jogasse futebol, o Galvão Bueno se recusaria a narrar o meu nome.
  • Eu sou tão chato que passei na prova oral por W.O.
  • Eu sou tão chato que o Djavan se inspira em mim para compôr.
  • Eu sou tão chato que me sentei pra conversar com o Forrest Gump e ele se levantou e foi embora.
  • Eu sou tão chato que João Gilberto é meu fã.
  • Eu sou tão chato que quando gerente de banco liga pra mim, diz que foi engano.
  • Eu sou tão chato que fui eleito porta-voz do Leão.
  • Eu sou tão chato que taxista não conversa comigo.
  • Eu sou tão chato que ia virar um quadro no Fantástico, mas fui reprovado.
  • Eu sou tão chato que tenho dois twitters.
  • Eu sou tão chato que o Drauzio Varella não quis me atender.
  • Eu sou tão chato que nem o MSN quer chamar minha atenção.
  • Eu sou tão chato que o Rogério Ceni pediu para não jogar no meu time.
  • Eu sou tão chato que minha mãe assiste Super Pop pra evitar falar comigo.
  • Eu sou tão chato que chamei meu amigo pra sair no sábado à noite e ele falou que não queria perder o Zorra Total.
É com prazer que comunicamos o falecimento...

Chato a esse ponto!

Lisboa – Parte 3

Terceira parte da minha saga pessoal de seis meses em Lisboa.

Janelas de Alfama

Crise!

A União Européia instituiu o euro em janeiro de 2002. Já faz quase 10 anos, mas parece que eles ainda não acostumaram sua economia à unificação da moeda.

Não sou nenhum economista – muito pelo contrário -, mas parece que é tudo relacionado com o câmbio, que devia flutuar de acordo com a produção, mas acaba se mantendo preso às definições continentais. Algo complexo demais para eu entender bêbado e chato demais pra eu me preocupar sóbrio.

A crise se espalhou. Países mais fracos, como a Grécia (ou meu Portugalzinho) foram os primeiros a sentirem. A situação ficou tão ruim que surgiu um bloco chamado “PIIGS”, composto pelas iniciais dos países nele pertencentes: Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. O nome PIIGS também é uma associação a “Porco”, que implica que a coisa nesses países anda tão ruim quanto no time do Palmeiras.

A Grécia é atualmente o lugar que tem a situação mais delicada. A situação por lá anda tão ruim que eles já até ameaçaram abandonar o euro. O país está juntando os cacos, como sempre fazem após um casamento. Os portugueses olham atentamente a situação da Grécia: sendo o segundo país mais fraco do bloco, a decadência de um vai automaticamente empurrar o outro pra baixo.

A crise em Portugal deve ser abrandada agora com uma ajuda externa do FMI. Algumas outras medidas emergenciais estão sendo tomadas para suprir o atual rombo da economia, o que inclui um imposto extra extraordinário no décimo terceiro salário de todos os portugueses; um imposto pesado, de 50% de tudo o que for acima do salário mínimo.

Alguns portugueses mais desesperados já estão trocando piadas por comida.

Mas a coisa não anda feia só na terrinha. Ainda na península ibérica, uma revolta popular tomou conta das ruas de Madrid exigindo algumas mudanças políticas no sistema de votação da Espanha. O protesto se espalhou até aos espanhóis residentes em Lisboa que, em maio, para apoiar os compatriotas, fizeram um acampamento na praça do Rossio em Lisboa, extendendo o protesto. A Espanha segue com uma taxa de 20% de desemprego e uma série de protestos pelo país.

Até países com uma economia forte e boa produção, que não fazem originalmente parte do PIIGS estão começando a sentir os efeitos da crise européia, como a França.

Entre os problemas políticos é estranhamente curiosa a situação da Bélgica. A Bélgica é um país bizarro. Ela é composta de uma metade francesa, uma metade propriamente belga e uns pedaços alemães, incorporados depois da Segunda Guerra (ou algo do tipo). A Bélgica possui então, um governo e um parlamento distinto para cada uma dessas partes. E elas devem entrar em acordo para formar um governo belga centralizado. Obviamente que fazer três parlamentos entrarem em acordo é como resolver uma pendência entre duas garotas brigadas entre si, só que sem a ajuda de uma luta no gel bem organizada. É por isso que a Bélgica já está há mais de 400 dias sem governo – e não parece que vai conseguir se organizar politicamente em um futuro tão imediato. Durma com um barulho desses.

Tão grande como a crise é a crença européia de que agora o Brasil é o país da vez. “O que diabos você está fazendo aqui? Se eu pudesse, eu iria mesmo era pro Brasil”, me disseram várias pessoas sem perceber que eles realmente podem ir pro Brasil. O país está realmente crescendo, mas ainda assim estamos sendo altamente superestimados por aqui.

Problemas políticos e corrupção definitivamente não é algo exclusivamente brasileiro. O que é vergonhoso mesmo é a forma como os políticos da República das Bananas se sentem livres e eternamente impunes, e a forma como os brasileiros são tratados como bestas. Crise nenhuma em país nenhum se assemelha a isso.

E assim a economia européia segue em uma ligeira decadência; Os Estados Unidos possuem uma dívida astronômica e a Inglaterra teve problemas sérios com a violência assolando as ruas… O Brasil pode ainda não ter virado primeiro mundo… Mas parece que o primeiro mundo virou Brasil.

Minha segunda casa

A vida de desabrigado seguia e eu não podia depender da boa vontade de amigos pelo resto de minha estadia em Lisboa – principalmente porque todos estavam indo embora e a quantidade de casas dispostas a oferecer um pedaço de chão para um brasileiro dormir se reduzia como virgens em um carnaval.

Voltei então ao site que oferecia habitações a estudantes. Com tantas pessoas indo embora, não deveria ser difícil encontrar uma nova casa disponível, em uma boa localização e a um preço acessível. Realmente não foi.

Aluguei rapidamente um quarto absurdamente bem localizado, em um apartamento no Baixa-Chiado, na região central de Lisboa, a 100m de duas linhas de metrô e com vista para o Castelo de São Jorge. O apartamento era habitado por três italianos divertidíssimos – e eu, que estava me dedicando a tentar aprender francês, mandei a língua às favas em troca de estudar italiano (lógico que, a partir do momento que eu tentei aprender duas línguas ao mesmo tempo eu consegui habilmente não aprender nenhuma).

Como bons italianos, meu período na segunda casa foi a época que eu mais me alimentei. Quase toda noite vinham visitas novas para comer alguma coisa – em 100% das vezes era massa, geralmente com atum. Atum era o combustível que impulsionava nossas vidas.

Os italianos eram pessoas ótimas. Massimo, de Torino, um dia me disse que o almoço dele se baseava em bolachas com atum. Quando perguntei se ele colocava uma maionese, pra ficar pastoso, ele foi direto. “Não! Atum tem que ser puro. Sou conservador.”

Jantar em casa

Mais um típico jantar baseado em massa com atum

Jack e Jacopo eram os outros dois habitantes da casa. Ao contrário das outras residências que eu fiquei, os italianos não eram estudantes, mas estavam em Lisboa trabalhando – apesar da faixa de “Greve Geral” que seguia estendida em nossa sala. A rotina então era menos acadêmica, o que incluía os moradores acordando cedo e, por vezes, até lavando a louça.

Tal qual nas outras casas, porém, essa também recebia constante visitas que dormiam na sala. Às vezes de amigos que moravam em Lisboa mesmo, mas não numa região tão central quanto nós (que estávamos a 3 minutos do Bairro Alto, central da boêmia Lisboeta). Outras vezes eram francesas que alguém conheceu na praia, italianos viajando a Europa de moto ou embriagados amigos brasileiros meus que vieram me resgatar e levar para a Oktoberfest.

Lamento o fato de só ter ficado dois meses nessa casa. Foi uma casa que se mostrou muito acolhedora, não só a mim, mas a todos que agüentavam subir os cinco andares de escada que levavam até ela.

Pelo Tejo vai-se para o mundo

Parece incrível pensar que eu fiquei só seis meses morando em Lisboa. Às vezes parece que foram anos, outras vezes parece que tudo passou tão rápido quanto uma ejaculação precoce. A pessoa perdida que chegou aqui em fevereiro é inefavelmente diferente da pessoa ainda perdida que está deixando Lisboa em setembro.

Eu nunca fui um cara sentimentalista. Muito pelo contrário, eu sempre me achei completamente desprovido de emoções. Mas foi curiosíssima a montanha-russa que se passa estando sozinho longe dos amigos e da família. Por diversas vezes me vi sozinho, triste e deprimido para, 15 minutos depois estar eufórico, animado e ansioso com alguma coisa. Essa montanha-russa parece constante. É como se meu estado psicológico tivesse finalmente despertado e ficasse pulando feito um retardado, por vezes chutando, outras afagando o meu hipocampo, quase causando uma pane em meu sistema límbico.

Aprendi a ser organizado. Aprendi a controlar meu dinheiro.

Tive uma aproximação muito maior de alguns amigos no Brasil. Parece que ter ido para longe de certas pessoas só nos fez ficar mais próximos.

Meus amigos do Brasil são um caso particular. A família é obrigada a nos agüentar pelo resto da vida, então eles não vão conseguir se livrar de mim. Os amigos não. Por isso que eu me senti muito fortalecido por tudo que meus amigos fizeram por mim. Eu sinto que, se eu voltasse para casa agora, seria como se eu nunca tivesse saído – acho que a proximidade com algumas pessoas que eu deixei até aumentou.

Também fiz ótimos amigos em Portugal – não só em Lisboa, mas espalhados por este pequeno país. Com o tempo, aprendi a gostar desta malta fixe que atende o telemóvel dizendo “Estou?”.

Amo Lisboa e a cidade me acolheu estupidamente bem. Mas no final de agosto, a vista do Castelo de São Jorge já não me impressionava como antes. Já conhecia o horário dos bondinhos, as pedras soltas da calçada da Rua Augusta e já não me perdia nos labirintos de Alfama.

Agora era a hora de eu ir embora.

E eu fui.